Viveu no Brasil uma pessoa de qualidades incomuns, cujo exemplo de vida costuma ser de grande proveito para as almas. Trata-se de Dona Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira, mãe de um eminente líder católico do século XX, Mestre de nosso fundador, Dr. Plinio Corrêa de Oliveira. Monsenhor João escreveu sua biografia com a finalidade de divulgar a sua vida, ilustrada por fotografias que falam por si, tal a expressividade da fisionomia dessa senhora transbordante de doçura e de benquerença.

Como exemplo de mãe católica, nunca tendo atuado fora do lar, poderá servir de inspiração a incontáveis pessoas em nossos dias, cujas vidas também se desenrolam no seio da família. Os inúmeros fatos narrados revelam como é possível executar as tarefas cotidianas com muita elevação de alma, reportando tudo ao sobrenatural e a Deus Nosso Senhor. Como diz São João da Cruz, no final da vida seremos julgados segundo o amor a Deus, e não de acordo com a exterioridade de nossas obras.

Dona Lucilia aos 16 anos; em 1906 pouco antes do casamento; em 1912, em Paris     

Algumas atitudes de Dona Lucilia podem nos dar ideia da caridade que a animava. Nos idos de 1968, ao acompanhar a convalescença de Dr. Plinio, que se recuperava de uma grave crise de diabetes e havia se submetido a séria intervenção cirúrgica, teve o autor ocasião de admirar a extraordinária doçura, suavidade e bondade de trato de Dona Lucilia. Preocupava-se com o bem dos outros e esquecia-se de si, dando mostras de um desapego incomum. Assim, em certa ocasião, por indicação médica, o autor precisou aplicar nela uma injeção. Dona Lucilia fitou o jovem que se aproximava com a seringa e disse: “Ora, mas justamente nesta noite de sábado, eu estou dando esta amolação ao senhor! Perdão por estar atrapalhando seu programa”. Terminado o procedimento, antes do jovem se despedir, ela ainda acrescentou: “Entristeceu-me muito ter causado esse transtorno ao senhor”. Para Dona Lucilia não importava o seu mal-estar; aos 91 anos, preocupava-se mais com os outros do que consigo mesma.

Esse esquecimento de si encantava a todos os que tinham algum contato com ela. Certo dia, encontrou no apartamento dois jovens lendo enquanto aguardavam serem chamados por Dr. Plinio. Ela logo interveio: “Os senhores me permitem uma sugestão? Eu fiz muitas imprudências em minha vida, lendo e forçando a vista em lugares pouco iluminados. E agora os vejo neste hall de entrada, que não é próprio para a leitura. Sempre que necessito me distrair folheando álbuns ou revistas, uso a sala de jantar, que tem muita luz, e como eu não vou mais retornar, os senhores poderiam passar para lá. Tenho certeza de que enxergarão melhor naquele ambiente”. Não parou aí a sua solicitude. Por duas vezes, mandou que averiguassem se o seu oferecimento havia sido aceito. Na terceira, a emprega pediu que os dois jovens fizessem o favor de passar à sala de jantar, pois Dona Lucilia não se tranquilizaria enquanto isso não se desse. São cortesias, fruto da autêntica caridade, desconhecidas pelo mundo moderno…

Dona Lucilia, no fim da década de 1930, visitando as instalações do jornal “Legionário”; na década de 1960, pouco antes de cumprir 80 anos

“A você eu tenho inteiramente”

Se nem todos a compreenderam e valorizaram, um reconhecimento ela teve a vida toda: o de Dr. Plinio, a quem chamava seu “filhão”. Quando já octogenária, viúva, ao cruzar com Dr. Plinio no corredor do apartamento em que moravam, pôs-lhe as mãos sobre os ombros e, fitando-o no fundo dos olhos, disse: “Filhão, só tenho a você, mas a você eu tenho inteiramente”.

Certa feita, depois de uma estada de Dr. Plinio de cerca de dois meses na Europa, Dona Lucilia olhou-o atentamente ao se reencontrarem, concluindo feliz: “Filhão, graças a Deus, você é sempre o mesmo!”. Como mãe diligente, preocupava-se com a perseverança do filho em meio às batalhas e perigos do mundo.

Em sua nobreza de alma, também não se apegava a vantagens materiais ou de prestígio social. Numa oportunidade em que determinado empreendimento de Dr. Plinio não obteve êxito, ela não se entristeceu. Quando lhe perguntaram qual a razão desse alheamento, respondeu que se tivesse sido bem sucedido, seu filho se ausentaria de casa por longos períodos, tendo que morar em outro Estado, e o convívio entre ambos diminuiria muito. Isso lhe causaria algum sofrimento, pois, conforme comentou na ocasião, “viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem”. Esta era, em suma, a sua divisa, pela qual pautava com verdadeira caridade o relacionamento com o próximo.

Caminhou para a morte com serenidade

“Talis vita, finis ita”, reza o ditado latino. Uma existência levada com tal espírito cristão e desprendimento teria um fim coerente. Assim, foi ela caminhando para a morte com toda a serenidade. Na manhã de 21 de abril de 1968, relata o livro, “com os olhos bem abertos, dando-se perfeitamente conta do solene momento que se aproximava, levantou-se um pouco, fez um grande sinal da cruz e, com inteira paz de alma e confiança na misericórdia divina, adormeceu no Senhor…”.

Começava, assim, junto aos que vão rezar em sua sepultura, e também pela ação de suas fotografias, uma torrente de graças que cresce a cada dia, trazendo alento na prática da virtude a incontáveis almas necessitadas de refrigério, luz e paz. ²

Ver o fruto do bom exemplo de Da Lucilia, que influenciando seu filho Dr Plinio, que tendo um discípulo fiel o Monsenhor João, fundou os Arautos do Evangelho que fazem tanto o bem por todo o mundo, é medir o quanto as consequências do bom exemplo são incalculáveis, e quanto fruto este exemplo ainda dará e não sabemos. (Adaptação da Revista Arautos do Evangelho, Maio/2013, n. 137, p. 36 à 39)

1 CHERANCÉ, Léopolde de. Saint Antoine de Padoue. Paris: Poussielgue, 1895, p.109-110.

2 LA VARENDE. Jean de. Don Bosco. Paris: Fayard, 1961, p.181.
3 Cf. SÃO JOÃO DA CRUZ. Dichos de luz y amor, n.59. In: Vida y obras completas de San Juan de la Cruz. Madrid: BAC, 1964, p.963.

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